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Bem-vindo a nossa casa.

Aqui contamos histórias sobre nossas peripécias dando a volta ao mundo em nosso veleiro. Nós somos: Fabio, Miriam, Caio, Rafael e Cacau e não sabemos onde vamos parar, só sabemos que vamos "Para onde o vento vai".


terça-feira, 14 de julho de 2026

Velejar é romanticamente desconfortavel

Você está num lugar maravilhoso, com natureza incontaminada, gastando uma fortuna em hospedagem e alimentação e CHOVE DIA E NOITE.


Uma velejada não é nada disso, é o ato de amor que você sente com a simplicidade de navegar ao sabor do vento. Essa é a parte romântica. A parte bela.


Travessia, mais genericamente como o ato de ir do ponto A ao ponto B atravessando um espelho d ' água é o ato de navegar observando as ondas e os ventos de modo que, mesmo que você faça tudo em zig e zag, você chega no destino.


Quando você veleja o que importa é curtir o momento, aproveitar o vento e sentir a emoção de navegar à vela. quando você faz uma travessia o que importa é buscar o menor caminho de menor esforço para, navegando a vela, chegar no seu destino o mais rápido possível


São duas abordagens completamente diferentes.


São dois estilos de vida completamente diferentes.


Nesse verão 2026, planejamos ir para Montenegro, acima da Albânia e abaixo da Croácia.



Como nossa base de inverno é Sicília (Licata) a navegação, para não ser cansativa, em especial com uma cadela velhinha e cega a bordo, deve ser projetada por pequenas travessias, se possível a vela.


O que determina nossas pernas de navegação é o WINDY. Vento a favor, velas para cima, vento contra, esperar na ancoragem, se protegida, se a ancoragem não der abrigo, então vento de paiol (motor).





Confesso que é a parte que eu não gosto. Ligar o motor para navegar num veleiro.


Mesmo assim, com base em nossas limitações e nas limitações da Cacau, vamos fazendo pequenas pernas com travessias quase sempre seguras e confortáveis. (A Cacau tem ataque epilético se fica estressada)


A última perna, que descrevo aqui, foi de Crotone para Santa Maria di Leuca. Passando da sola da bota (Itália) para o salto da bota.


Foram 88 milhas náuticas com ventos de entre 14 e 25 nos. Como a variação atingia picos de 25 nos e havia uma previsão que indicava esse picos, saímos rizados no segundo rizo. Eu, voluntariamente, mantive o primeiro rizo na genoa e o segundo na mestra.


Minha motivação era mais técnica que se baseia no conhecimento do comportamento do LADY BLUE e no conhecimento de travessias (tendo feito muitas pernas variando de 10 milhas a 2000 milhas.


O golfo de Taranto é conhecido por ter um vento determinante de componente norte e um mar agitado (mosso como dizem os italianos) porque existe uma grande pista de vento até chegar nas embarcações que estão navegando nessa travessia.


Ondas variando de 0.5 a 2 metros no costado de bombordo por 90% do tempo. Mesmo bem rizado o LADY BLUE oscilava de uma inclinação de 15 a 30 graus. Fonte do desconforto.


Mesmo assim, 88 milhas náuticas em 20 horas. LADY BLUE lutando contra o vento e contra as correntes fez 4.4 nos de velocidade média e, como sempre, confiável e seguro, nos portou a mais uma ancoragem em Santa Maria di Leuca.




Conhecemos o lugar, não é nossa primeira ancoragem aqui. Fizemos algumas. Este ponto é onde descansamos e esperamos a próxima janela para a próxima travessia.


A rotina a bordo segue: Cuidar da Cacau e cuidar do LADY BLUE. Ambos de família. Ambos no coração.




quinta-feira, 2 de julho de 2026

A patria da burocracia e do controle

Depois de duas semanas tranquilas pelas águas de Malta voltamos para Itália. Temos algumas pernas de navegação para fazer por aqui antes de chegar em Montenegro.

Piloto automático funcionando tranquilo, Nenhum perigo no AIS, vento de traves de 12 nos, LADY BLUE sussurrando ao som da água do mar no casco então...

Foooooom !!!



A buzina desse sujeito gritando para pararmos. Estávamos em águas internacionais então a ficha não caiu imediatamente. A Miriam foi a primeira a olhar e achou que vinha um ferry em nossa direção. Não era um ferry, era um barco de guerra... Não sou experto mas um pouco de geografia eu conheço para passar longe dos lugares de conflito. Na foto parece pequeno, mas já estava longe quando a Miriam se acalmou e tirou a foto.

Era uma motovedetta que se aproximou, muito para meu gosto, falando um inglês macarrônico. Imediatamente, pelo sotaque, percebi que era italiana e entrei na onda. Fiquei no inglês para ver até onde ia o nosso vocabulário conjunto.

Pelo que entendi estavam reclamando que o AIS não estava ligado e que não tinham os dados do LADY BLUE, e portanto iriam fiscalizar os documentos.

Me passou pela cabeça algumas preocupações, a principal era como eles fiscalizariam documentos do LADY BLUE no mar aberto. Se eles encostassem no costado do LADY BLUE o dano seria certo.

Ai eles tiraram um puça, daqueles que usamos para pegar o peixe na ponta da linha. Nessa hora eu falei em inglês que temos dupla cidadania e que nossos documentos são brasileiros e italianos.

Foi o momento que se sentiu que a tensão deixou de existir para o lado deles. Antes de saberem que eramos italianos os militares (uns 10) estavam todos focados e prestando atenção na proa da motovedetta em cada movimento nosso.

Percebi que dois deles estavam fortemente armados, mas muito discretos, mais ao fundo.

Sob o ponto de vista deles parecíamos uma ameaça para o estado italiano. Eu, a Miriam e a Cacau não merecíamos o respeito que merecem os invasores que vem para estas águas fugir da africa. Nos sim parecíamos uma verdadeira ameaça. 

Depois que falei que eramos italianos e brasileiros a tensão sumiu, aqueles dois fortemente armados sumiram, ficaram somente uns 3 na proa e esticaram o puça para eu colocar dentro os documentos do barco e os nossos.

Eu exagerei, coloquei até o passaporte sanitário da Cacau, minha carteira de capitão amador, passaportes brasileiros e italianos, cartão de identidade do LADY BLUE e da empresa que é sua proprietária, etc

Se eles querem ser burocráticos vou dar a eles algum trabalho e muito papel. Em geral um burocrata adora papel.

Eles pegaram os documentos e falaram: Pode continuar sua viagem !!!

COMO ASSIM ??? Eu preciso destes documentos !!! A resposta é simples, não se preocupe, achamos você onde quer que você se enfie !!!

Eu tinha opções, mas não tinha poder algum. Então seguimos viagem.

Nessa hora já estávamos entrando em águas italianas. O costa já estava ficando cada vez mais reconhecível e nada dos nossos documentos.

E pior, a motovedetta parecia se deslocar cada vez mais para longe.

Sempre fica a preocupação de que algo não esta correto, ou que alguma coisa mudou na legislação que não sabemos ou que ainda não tem uma interpretação firme sobre como proceder.

A pulga atras da orelha começa a ficar cada vez mais pesada.

Então olhamos no horizonte e vemos que a motovedetta começa a vir na nossa direção e parece ter pressa, considerando a água que levantava pela proa.. Nessa hora eu pensei no seguinte

Opção 1: O LADY BLUE sera apreendido porque eu sou Italiano e a bandeira é Polonesa. Eles não gostam muito dessa combinação por estas águas.

Opção 2: Eu vou preso porque falei Italiano errado e demorei quase 10 minutos para baixar as velas antes de prestar atenção no que eles queriam

Opção 3: A Cacau é apreendida porque não tem atualização santaria da semana passada

Opção 4: Tudo em ordem e podemos continuar a navegação (na minha cabeça parecia a opção menos provável)

Perceba a ordem das opções: Eu já estou por estas bandas faz tanto tempo e portanto entendo claramente o significado do colorario de Smith que foi produzido sobre a lei de Murphy. Smith afirma que Murphy era um otimista. E eu sei o que significa "Se alguma coisa pode acontecer, ela vai acontecer do jeito que produza o pior resultado e o maior prejuízo"

Não foi o caso. 

Opção 4 acionada com um agradecimento em Inglês pela colaboração. (não faço ideia de porque em inglês, mas acho que meu italiano deve estar tao enferrujado ...)

TUDO EM ORDEM

Depois eu percebi a importância do TUDO EM ORDEM porque eu vi que a motovedetta era da GUARDIA DI FINANZA.

Eles são a RECEITA FEDERAL gente!!! Eles são o topo da cadeia alimentar da burocracia italiana

Com o "nullaosta" deles eu consigo ir para qualquer lugar do mundo tranquilo.

A papelada esta toda em ordem.

Enfim, seguimos viagem até a ancoragem em Cabo Passero. Abrimos um prosecco e pudemos enfim relaxar de uma travessia tranquila de Malta para pátria de todos os controles, a minha querida Itália.



sábado, 20 de junho de 2026

Começa temporada 2026-2027

Estamos iniciando nossa temporada e sabemos da importância da Lei de Murphy, portanto resolvemos fazer revisão do estaiamento antes de enfrentar o que o mar e o vento nos reserva.

A ideia de trocar estaiamento e velas ficou para o inverno de 2027.

Navegar no Mediterrâneo é quase sempre seguro e o mais reconfortante é que parece uma estrada com tráfego intenso. Sempre tem alguma embarcação na linha de visão.

Isso é um conforto e ao mesmo tempo uma apreensão. AIS sempre ligado e alguém sempre de olho. 

Nossa temporada começa de verdade quando chegamos em Malta. 

Sempre Malta. 

Uma passagem obrigatória. Supermercado com todo tipo de tranqueira que não tem na Itália, ancoragens com poitas publicas, nenhum enchimento de saco de ninguém.

Diferente da realidade na Itália. Quando estamos em águas italianas as autoridades parecem não ter outra coisa para fazer a não ser embarcar, verificar documentação, fazer um boletim de ocorrência e ir embora. As vezes duas autoridades diferentes na mesma inspeção.

Águas italianas é para italianos (tem lugares maravilhosos para conhecer, mas é melhor evitar se você não estiver 100% em regra. Um documento errado e a temporada acaba.

Agora falando de navegação...

De Marina de Ragusa (depois da inspeção do estaiamento) até chegar em Malta foi um vento de traves confortável variando de 15 a 20 nos. O LADY BLUE trimado e ajustado fazendo até 8.2 nos de velocidade em um bordo onde passar dos 6 nos era possível somente com ventos acima de 25 nos.

Se alguém precisar de um alinhamento de mastro ou trimada de mastro deve procurar o Paolo de Marina de Ragusa (contato no private) que faz um trabalho muito bom. Ele tem um medidor de pressão dos estais que a exata carga em Kg de cada estai. (o aparelho custa uns 7 mil euros, então é melhor contratar a inspeção e regulagem por uns 200 euros. Sua veleiro vai agradecer.

Com a primeira ancoragem com cheiro de inicio de temporada estamos começando a curtir um pouco da vida embarcada novamente. O ciclo se repete todo ano. Inverno na Marina, verão seguindo com o vento.

Velejar é um sentimento que não pode ser explicado, simplesmente vivido.



Nossos planos são simples: Curtir Malta e depois seguir para o próximo local. Este ano a Mandante quer ir para Monte Negro. Dizem que é muito bonito e cheio de historias. Vamos ver !!!

Nosso lema é seguindo para onde o vento vai. Dessa forma vamos seguindo...