Depois de duas semanas tranquilas pelas águas de Malta voltamos para Itália. Temos algumas pernas de navegação para fazer por aqui antes de chegar em Montenegro.
Piloto automático funcionando tranquilo, Nenhum perigo no AIS, vento de traves de 12 nos, LADY BLUE sussurrando ao som da água do mar no casco então...
Foooooom !!!
A buzina desse sujeito gritando para pararmos. Estávamos em águas internacionais então a ficha não caiu imediatamente. A Miriam foi a primeira a olhar e achou que vinha um ferry em nossa direção. Não era um ferry, era um barco de guerra... Não sou experto mas um pouco de geografia eu conheço para passar longe dos lugares de conflito. Na foto parece pequeno, mas já estava longe quando a Miriam se acalmou e tirou a foto.
Era uma motovedetta que se aproximou, muito para meu gosto, falando um inglês macarrônico. Imediatamente, pelo sotaque, percebi que era italiana e entrei na onda. Fiquei no inglês para ver até onde ia o nosso vocabulário conjunto.
Pelo que entendi estavam reclamando que o AIS não estava ligado e que não tinham os dados do LADY BLUE, e portanto iriam fiscalizar os documentos.
Me passou pela cabeça algumas preocupações, a principal era como eles fiscalizariam documentos do LADY BLUE no mar aberto. Se eles encostassem no costado do LADY BLUE o dano seria certo.
Ai eles tiraram um puça, daqueles que usamos para pegar o peixe na ponta da linha. Nessa hora eu falei em inglês que temos dupla cidadania e que nossos documentos são brasileiros e italianos.
Foi o momento que se sentiu que a tensão deixou de existir para o lado deles. Antes de saberem que eramos italianos os militares (uns 10) estavam todos focados e prestando atenção na proa da motovedetta em cada movimento nosso.
Percebi que dois deles estavam fortemente armados, mas muito discretos, mais ao fundo.
Sob o ponto de vista deles parecíamos uma ameaça para o estado italiano. Eu, a Miriam e a Cacau não merecíamos o respeito que merecem os invasores que vem para estas águas fugir da africa. Nos sim parecíamos uma verdadeira ameaça.
Depois que falei que eramos italianos e brasileiros a tensão sumiu, aqueles dois fortemente armados sumiram, ficaram somente uns 3 na proa e esticaram o puça para eu colocar dentro os documentos do barco e os nossos.
Eu exagerei, coloquei até o passaporte sanitário da Cacau, minha carteira de capitão amador, passaportes brasileiros e italianos, cartão de identidade do LADY BLUE e da empresa que é sua proprietária, etc
Se eles querem ser burocráticos vou dar a eles algum trabalho e muito papel. Em geral um burocrata adora papel.
Eles pegaram os documentos e falaram: Pode continuar sua viagem !!!
COMO ASSIM ??? Eu preciso destes documentos !!! A resposta é simples, não se preocupe, achamos você onde quer que você se enfie !!!
Eu tinha opções, mas não tinha poder algum. Então seguimos viagem.
Nessa hora já estávamos entrando em águas italianas. O costa já estava ficando cada vez mais reconhecível e nada dos nossos documentos.
E pior, a motovedetta parecia se deslocar cada vez mais para longe.
Sempre fica a preocupação de que algo não esta correto, ou que alguma coisa mudou na legislação que não sabemos ou que ainda não tem uma interpretação firme sobre como proceder.
A pulga atras da orelha começa a ficar cada vez mais pesada.
Então olhamos no horizonte e vemos que a motovedetta começa a vir na nossa direção e parece ter pressa, considerando a água que levantava pela proa.. Nessa hora eu pensei no seguinte
Opção 1: O LADY BLUE sera apreendido porque eu sou Italiano e a bandeira é Polonesa. Eles não gostam muito dessa combinação por estas águas.
Opção 2: Eu vou preso porque falei Italiano errado e demorei quase 10 minutos para baixar as velas antes de prestar atenção no que eles queriam
Opção 3: A Cacau é apreendida porque não tem atualização santaria da semana passada
Opção 4: Tudo em ordem e podemos continuar a navegação (na minha cabeça parecia a opção menos provável)
Perceba a ordem das opções: Eu já estou por estas bandas faz tanto tempo e portanto entendo claramente o significado do colorario de Smith que foi produzido sobre a lei de Murphy. Smith afirma que Murphy era um otimista. E eu sei o que significa "Se alguma coisa pode acontecer, ela vai acontecer do jeito que produza o pior resultado e o maior prejuízo"
Não foi o caso.
Opção 4 acionada com um agradecimento em Inglês pela colaboração. (não faço ideia de porque em inglês, mas acho que meu italiano deve estar tao enferrujado ...)
TUDO EM ORDEM
Depois eu percebi a importância do TUDO EM ORDEM porque eu vi que a motovedetta era da GUARDIA DI FINANZA.
Eles são a RECEITA FEDERAL gente!!! Eles são o topo da cadeia alimentar da burocracia italiana
Com o "nullaosta" deles eu consigo ir para qualquer lugar do mundo tranquilo.
A papelada esta toda em ordem.
Enfim, seguimos viagem até a ancoragem em Cabo Passero. Abrimos um prosecco e pudemos enfim relaxar de uma travessia tranquila de Malta para pátria de todos os controles, a minha querida Itália.